10.11.16

História e expressões indígenas têm pouco espaço no currículo escolar


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Por Fabson Gabriel

Dissertação defendida no Programa de Pós-Graduação em Educação Contemporânea da UFPE revela que tratar sobre a história e expressões socioculturais indígenas nas escolas tem espaço reduzido ou nenhum, se comparado com conteúdos referentes à Língua Portuguesa e Matemática, disciplinas privilegiadas do perfil curricular. A pesquisa realizada por Maria da Penha da Silva e orientada pela professora Conceição Gislâne Nóbrega Lima de Salles constatou dificuldades a respeito do ensino sobre a história dos povos indígenas, geralmente, associada à ausência de conteúdos relacionados com a temática indígena na formação inicial e continuada dos docentes; à ausência de apoio da Secretaria de Educação; e à inexistência de um plano institucional que dê prioridade às questões étnico-raciais.

A pesquisa “A temática indígena: um estudo sobre as práticas curriculares docentes nos anos iniciais do ensino fundamental em Pesqueira/PE” foi defendida no Centro Acadêmico do Agreste (CAA) da UFPE e se constituiu por meio de um estudo de campo realizado em três escolas municipais localizadas na área urbana da cidade de Pesqueira. Foram feitas visitas às áreas indígenas habitadas pelo povo Xukuru do Ororubá, estabelecendo diálogo envolvendo 14 lideranças indígenas. Nas escolas, a pesquisa foi realizada do 1° ao 5° ano do Ensino Fundamental e contou com a participação de 12 docentes. As informações foram coletadas a partir de conversas informais, entrevistas semiestruturadas, observações das atividades pedagógicas, dos subsídios didáticos e de documentos curriculares que orientavam as atividades das professoras e revisão bibliográfica de autores no campo da Educação e do Currículo, da História e da Antropologia. 

“Notamos que o contexto escolar que estudamos em grande parte assemelha-se à situação geral das escolas no Brasil. Todavia, notamos alguns aspectos que diferem, como a interferência involuntária do povo Xukuru do Ororubá nas atividades letivas em determinado período do ano, quando ocorre a Assembleia Xukuru e um ato público em protesto ao assassinato do Cacique Xicão, uma liderança política e historicamente importante para o povo Xukuru do Ororubá”, afirma a pesquisadora.

Na ocasião, os estudantes indígenas das escolas próximas às áreas indígenas são dispensados das aulas para participarem do evento. A pesquisa mostra que as escolas procuram adaptar as atividades de forma que não prejudique os estudantes que foram dispensados e informam aos demais estudantes o que está ocorrendo nas áreas indígenas naquele período, através de eventos nas escolas e exibição de filmes documentários que tratem sobre questões relacionadas aos povos indígenas. Entretanto, nas outras escolas pesquisadas, o planejamento sobre a temática indígenas fica sob a responsabilidade dos docentes, havendo assim uma variedade de atividades e estratégias pedagógicas próprias a cada contexto de sala de aula.

“A visão das lideranças indígenas entrevistadas sobre as práticas docentes nas escolas municipais na cidade converge basicamente com as afirmações das professoras, principalmente quando ressaltaram o despreparo docente acerca dos conhecimentos necessários para o ensino sobre a história e as expressões socioculturais do povo Xukuru do Ororubá”, revela a pesquisadora. 

Diálogos sobre a participação dos indígenas na história do município; a história das mobilizações políticas pela retomada do seu território tradicional indígena; as expressões socioculturais Xukuru do Ororubá, incluindo o respeito às crenças espirituais; e a relação com a natureza e as produções artísticas são aspectos sugeridos pelas lideranças indígenas como forma de construção dos conhecimentos a serem ensinados. 

“É necessário vontade política e compromisso social de todos os atores envolvidos na educação escolar, a começar pelo Estado, os gestores municipais e toda a comunidade escolar, sobretudo considerando a disposição dos indígenas em contribuir com a produção do conhecimento de si e sobre si para o universo educacional”, considera a pesquisadora. 

Mais informações

Programa de Pós-Graduação em Educação Contemporânea
(81) 2103.9179
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Maria da Penha da Silva
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