14.06.17

Discursos de violência no Facebook reproduzem LGBTfobia dentro e fora das redes


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Por Emilayne Santos

Com o desenvolvimento das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) aumentou o acesso à produção de conteúdos, não apenas por parte de quem produz, mas também o receptor passou a ter uma participação mais ativa nos meios hegemônicos de comunicação. Este acesso comporta grande dose de exclusão social, e as plataformas multimídias, como é o caso do Facebook, potencializam os problemas no mundo off-line servindo, também, como um canal de reprodução de desigualdades sociais. Dessa forma, a desigualdade que vitima pessoas LGBTs pode ser visualizada nos discursos dessa rede social específica.

Exemplos dessa constatação foram observados na dissertação "Os sentidos dos discursos sobre gênero e sexualidade no Facebook: a desigualdade social 'curtida' e 'compartilhada'", de autoria do professor Rafael Morato e defendida no Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos da UFPE. O autor verificou que "de um modo geral, os sentidos construídos sobre gênero e sexualidade no Facebook são conflitantes e defendem caminhos distintos; enquanto alguns pregam a defesa das pessoas LGBTs e se valem de perspectivas de Direitos Humanos, outros fazem o oposto, reproduzem a segregação e a inferiorização dessa população".

Para compreender como se constroem esses discursos, o autor se valeu do modelo de Análise de Discurso Crítica (ADC) e do trabalho de Foucault sobre poder e discurso, destacando alguns pontos de relevância como o que entende que "as estruturas sociais sofrem influência direta e indireta das discursivas" e, ainda na linha foucaultiana, "todas as práticas discursivas de alguma forma são definidas por relações com outras práticas; sendo influenciadas por elas e influenciando-as". Para o pesquisador, "com as interdiscursividades, foi possível compreender as relações de poder e os sentidos ideológicos que estavam influenciando a formação dos discursos sobre gênero e sexualidade e, consequentemente, reproduzindo desigualdade social”.

MÍDIA - Segundo o trabalho, o Facebook atualmente é a rede social mais utilizada no Brasil e no mundo. Por esse motivo, acaba sendo referência nos estudos que buscam investigar questões ligadas a discursos nas mídias sociais. Essa plataforma já possui mais de 1 bilhão e meio de usuários ativos no mundo. A maior parcela de usuários conectados encontra-se em países emergentes, como o Brasil.

Através da análise das postagens do Humaniza Redes - Pacto Nacional de Enfrentamento às Violações de Direitos Humanos na internet, - uma criação do Governo Federal para garantir mais segurança na rede -, o professor atesta que foi possível refletir sobre os sentidos que estavam interagindo naquele ambiente e sobre como esses sentidos contribuem para a reprodução de desigualdades sociais em relação aos LGBTs.

Das páginas virtuais estudadas, o pesquisador analisou declarações ofensivas à comunidade LGBT como: "vocês, petistas, escolheram a marginalidade. Respondam por suas escolhas. Longa pena atrás das grades"; "Identificação de gênero é transtorno psicológico"; "defender Gays. Isso não é defesa da (sic) gay algum. Isso é homoditadura. É usar a orientação sexual como camisa de forma para calar a boca de milhões de brasileiros (...)" e, ainda, "nunca seu lixo. Acabou a mamata". Todas opiniões postadas em páginas abrigados no Humaniza Redes.

O professor explica a importância social de tratar esse tema sob a sua perspectiva. “O que mais preocupa dentro desse contexto de violências nas redes sociais é que a desinformação veloz passou a ser, em certa medida, regra. Os textos são curtos demais, as reflexões rasas demais, as postagens estão cada vez mais propagandísticas e as pessoas parecem seguir as falas fáceis, ainda que desonestas”, afirma.

Segundo Morato, a luta contra a LGBTfobia nas redes não é exclusividade de pessoas LGBTs, mas de toda a sociedade civil organizada, pois esse discurso violento atinge todos, seja nas plataformas de socialização virtual, ou no mundo off-line. “Assim como nos movimentos negro e feministas, essa luta precisa penetrar mais na sociedade até influenciar os comportamentos de modo a trazê-los para perspectivas de Direitos Humanos. É preciso que as pessoas entendam que combater desigualdades sociais é uma luta de todos e que todos ganham quando essas assimetrias são desconstruídas", diz o professor de Direitos Humanos.

E reforça ainda com exemplos facilmente observados no cotidiano. “Não é apenas a minoria LGBT que sofre LGBTfobia. Embora haja graus diferentes de violência para pessoas diferentes, elas atingem a todos: o pai/irmão que não pode demonstrar afeto em público/nas redes a seu filho/irmão sem ser hostilizado; o casal heterossexual/homossexual que foge dos padrões convencionais de gênero e sexualidade e sofre repressões; o menino que é impedido de demonstrar as suas emoções, pois é algo desconforme com o que se espera dele”, destaca.

Mais informações

Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos/UFPE
(81) 2126.8766

Rafael dos Santos Morato
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