Biografias - Tobias Barreto de Meneses (1839-1889)

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Tobias Barreto

 

Tobias Barreto de Meneses nasceu em Campos, Sergipe, no dia 7 de junho de 1839 e faleceu no dia 26 de julho de 1889. Originado de uma família bastante humildade, a condição social e os preconceitos de cor e de classe não impediram Tobias de tornar-se uma das mais importantes figuras do país. Nas palavras de Hermes Lima: “Tobias pertenceu à fulgurante plebe, ao grupo de homens de origem humilde e mestiça, que, através das academias, invadiu a vida pública e a vida intelectual do Brasil”.1

Desde muito cedo, o jovem já demonstrava talento para aprender – durante toda sua vida, Tobias Barreto foi autodidata, inclusive aprendeu alemão sozinho. Matriculou-se no curso de latim, em Estância e, aos quinze anos, recebeu o certificado para atuar como professor substituto da cadeira, em qualquer lugar que fosse.

Para manter seu sustento econômico, Tobias deu aulas particulares desde cedo. No ano de 1857, em Itabaina, conquistou vaga em concurso para professor de latim. Em 1861, porém, dirigiu-se para Bahia, pois tinha em mente seguir carreira eclesiástica. Vocação nada compatível com sua personalidade extravagante e gênio forte:

"Mas não havia tempo a perder. Após conseguir uma licença de seis anos para estudar, chega em 61 à Bahia com a intenção de ordenar-se. Demove-o desta ideia a estada de uma única noite dentro dos muros do Seminário onde, ao que se conta, impaciente por se ver preso, e ralado de saudades, rompeu escandalosamente a tranquilidade da casa, cantando modinha ao violão. De fato, logo pela manhã, dali saía à procura de conhecidos”.2

No dia 1 de dezembro de 1862, Tobias com então vinte e três anos, desembarcou na cidade do Recife com apenas 95$000 no bolso, assim, logo a sua chegada, sentiu as primeiras dificuldades. Infelizmente, foi vítima de dois infortúnios: no primeiro dia na capital pernambucana, Tobias levou coice de mula que o deixou acamado por dias e, em 1863, adquiriu varíola. Finalmente, em 1864, matriculou-se na Faculdade de Direito do Recife, bacharelando-se aos trinta anos. Ao término do curso, Tobias já estava casado – casara-se a 11 de fevereiro de 1868 – e conhecia a paternidade. Em de 1882, conquistou vaga em concurso para professor da Faculdade.

Na época de estudante, o Curso Jurídico do Recife era cenário de grande movimentação intelectual, sobretudo através de revistas e jornais acadêmicos, produzidos e divulgados pelos próprios alunos: Revista Jurídica, Aurora, A Revista Mensal do Grêmio Científico, O Forum, A Regeneração, A Mocidade, Acadêmico do Norte, A Regeneração, A Carta, entre outros menos conhecidos.

A primeira produção acadêmica a receber colaboração de Tobias foi, muito provavelmente, um jornal de cunho científico e literário, intitulado O Acadêmico. Em 1866, Tobias chefiava a Revista Ilustrada, enquanto Castro Alves, A Luz. Logo que a primeira entrou em circulação, Tobias Barreto expunha suas ideias, atacando o estilo e pensamento de Castro Alves, ainda que não fizesse menção ao nome deste. Tal episódio ilustra bem a personalidade e postura que Tobias assumiu durante toda vida: homem de grande inteligência, crítico implacável, satírico, extrovertido, estudioso e arquiteto de ideias, Tobias Barreto de Menezes não hesitava envolver-se em debates ou discussões acaloradas.

Certamente a personalidade e críticas de Tobias desagradaram a muitos, não sendo incomum, em várias de suas biografias, menções feitas ao seu jeito “desalinhado, descuidado na aparência, amolecado na roupa, gesto e palavra”.3 A verdade é que a juventude difícil, sempre em busca de oportunidades para superar sua condição social, fez com que Tobias conhecesse a realidade do país, tornou-o observador, crítico e avesso da política, da educação acadêmica e dos hábitos que pregassem o afastamento da praxis, das ações concretas e do estudo aos eventos atuais. Assim, Tobias “jamais reconheceu-se como homem de recolhimentos, de isolamentos”.4

Tobias Barreto foi jurista, professor, musicista, filósofo, literário, jornalista e poliglota. Sobre esta última característica, conhecia do francês, inglês, russo, grego, latim, italiano e, sobretudo, alemão. O germanismo tobiético marcou sua vida e foi responsável pela difusão da filosofia e direito alemão no Brasil, partindo, sobretudo, de seus trabalhos desenvolvidos na Escola do Recife.  Entretanto, o alemão era minimamente conhecido, mesmo entre os acadêmicos. Por isso, muitos criticavam seu uso por Tobias, censurando-o: “Falar em alemão é nada dizer”.5

Tobias Barreto promoveu verdadeira transformação na filosofia, sociologia, literatura, mas, sobretudo, no direito brasileiro, sendo responsável por sua redefinição conceitual:

“A campanha que Tobias dirigiu contra o Direito natural constitui uma das partes mais brilhantes da sua obra. É preciso bater cem vezes e cem vezes repetir, exclama: o Direito não é filho do céu, é, simplesmente, um fenômeno histórico, um produto cultural da humanidade. Serpes nisi serpentem comederit non fit draco, a serpente que não devorava a serpente não se faz dragão. A força que não vence a força não se faz Direito; o Direito é a força que matou a própria força…”.6

Tobias deixou extensa produção que consta, entre outra, das seguintes obras: Estudos alemães (1883), Questões vigentes de filosofia e de Direito (1888) e Estudos de Direito (1898).

 


1     LIMA, Hermes. Tobias Barreto (A época e o Homem). Companhia Editora Nacional: Rio de Janeiro, 1939. P.2.

2     Idem. P.4-5.

3     VEIGA, Gláucio. A Escola do Recife. Vol. III/ Tomo I, p.45.

4     Idem, p.48.

5     Idem, p. 192

6     BEVILAQUA, Clóvis. História da Faculdade de Direito do Recife. 3ª ed. Recife: Editora Universitária da UFPE, 2012, p.542.