Dramaturgia em Pernambuco ainda sofre com falta de incentivos

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07/11/2017

 

Pernambuco se destacou, ao longo do século passado, como um dos principais polos produtores de artes cênicas do País. Naturalmente, a produção intensa criou um ambiente propício para o desenvolvimento de dramaturgia autoral e reconhecida nacionalmente, com nomes como Nelson Rodrigues, Hermilo Borba Filho e Osman Lins, só para citar alguns. A criação dramatúrgica no Estado não ficou cristalizada e continua a se
renovar, com textos de alta qualidade que movimentam os palcos locais. Essas obras, no entanto, costumam se perder após serem encenadas, pela dificuldade de publicar e difundir esses trabalhos.

A dramaturgia pernambucana tem, nas últimas décadas, vivido um momento de renovação. Nomes como Newton Moreno, Luiz Felipe Botelho, João Denys, João Falcão, Carla Denise, André Filho, Samuel Santos, entre outros, tiveram papel importante nesse movimento. Mais recentemente, os trabalhos autorais ganharam ainda mais força com o teatro de grupo, que incentiva a criação coletiva, a exemplo da Fiandeiros e do Magiluth.

“Tenho a impressão que houve um deslocamento da produção dramatúrgica do modelo ‘escritor de gabinete’ – que cria um espetáculo de forma solitária para que ela possa ser publicada ou descoberta por um grupo –, para o de grupos criando suas dramaturgias, construindo e desconstruindo textos, sem hierarquias”, pontua Rodrigo Dourado, diretor e professor de Artes Cênicas da UFPE.

Para Giordano Castro, do Grupo Magiluth – que já lançou Aquilo Que Meu Olhar Guardou Para Você em livro, pela editora Fontanella (RN) –, a publicação de dramaturgias tem, também, função de registro histórico.

“O Teatro é uma arte do presente e, em geral, depois que vai para o palco, já era. Então, uma forma de você manter vivos esses trabalhos é publicar. É uma forma das novas gerações conhecerem os trabalhos. Mas, no Brasil, há pouco incentivo para a dramaturgia”, pontua.

PRÊMIO ARIANO SUASSUNA

Em Pernambuco, a falta de incentivo para os dramaturgos vai desde a formação precária (há oficinas
e cursos esporádicos, mas nada que tenha continuidade) e de fomento à produção. Uma das exceções é o Prêmio Ariano Suassuna de Cultura Popular e Dramaturgia, criado em 2015 pelo Governo do Estado.
O edital prevê a eleição de obras inéditas de Teatro Adulto, Teatro de Animação e Teatro para Infância, premiando os primeiros lugares de cada categoria com R$ 10 mil e, os segundos lugares, com R$ 7 mil, além da publicação dos textos.

Na segunda edição do prêmio, entregue este ano, foram eleitos os textos de Teatro Adulto O Gaioleiro, de Raphael Gustavo (1º lugar), e Sina, de Andala Quituche (2º lugar). A Comissão de Seleção deliberou pela não premiação de nenhuma das dramaturgias inscritas nas outras categorias.

“O prazer por escrever tem que ser cada vez mais fomentado, assim como os editais de premiação que têm um papel imprescindível de valorização e incentivo. Pena que a mídia e as próprias academias e livrarias ainda resistam”, acredita

Raphael Gustavo, que pontua ainda que até grandes nomes, como Osman Lins, sofreram resistência do mercado editorial, devido ao que considera uma preferência aos autores do Sul do País.

Para Andala Quituche, iniciativas como o Prêmio Ariano Suassuna são essenciais diante dos entraves do mercado editorial, mas precisam ser fortalecidas. Ela aponta, por exemplo, o fato das outras categorias não terem sido preenchidas.

“Foram 33 inscritos e não houve material suciente para premiar nas outras categorias? Quais foram os pontos, os critérios que levaram esses textos a não serem premiados? Não acredito que esses textos não tiveram valor. Ao não premiar essas categorias, a Comissão enfraquece o prêmio, porque esse dinheiro volta para os cofres públicos. A Fundarpe e a Secult precisam ter esse cuidado”, pontua, ressaltando ainda a simbologia da sua eleição enquanto dramaturga negra.

De acordo com José Neto Barbosa, assessor de Teatro e Ópera da Fundarpe, o Governo está em negociação com a Companhia Editora de Pernambuco (Cepe) para publicar as dramaturgias vencedoras da primeira edição do prêmio, que deverá ter tiragem de mil exemplares e será distribuída gratuitamente. O edital do 3º Prêmio Ariano Suassuna já foi lançado e pode ser conferido no site da Fundarpe.

A publicação de dramaturgia também é incentivada pelo Funcultura. Foi através desse incentivo que Cleyton Cabral, que também foi premiado na 1º edição do Prêmio Ariano, lançou em livro sua peça O Menino da Gaiola.

“Criar políticas culturais com um olhar para quem escreve para teatro também é um caminho que pode germinar bons frutos. E que o estado revele mais e mais dramaturgos. Tem gente pra escrever. Tem gente pra apreciar”, reforça Cleyton.

 

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