Novela sobre ministro da Educação mostra que Bolsonaro virou refém do próprio personagem

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23/11/2018


Jair Bolsonaro foi eleito prometendo combater “tudo isso que está aí”. Na campanha, anunciou que montaria um ministério sem indicação política, sem ideologia e sem investigados. Garantiu que enxugaria a máquina pública e privatizaria o que pudesse.

Com um discurso moralizador, anticorrupção e antipolítica, ganhou apoio dos setores mais conservadores da sociedade. Em rede nacional, mostrava indignação contra o chamado kit gay, que jamais foi distribuído nas escolas e, para delírio da bancada evangélica e dos arautos do Escola sem Partido, vociferou contra uma suposta sexualização precoce e estimulada entre estudantes.

Uma vez eleito, percebeu que não consegue governar sem fazer…política.

Até aqui, privilegiou nomes do DEM com três ministérios (Agricultura, Casa Civil e Saúde), o que desagrada seu próprio partido, o PSL. Os três somam episódios, digamos, controversos na vida pública – suspeitas, em outras palavras. Mas ele garante que as escolhas, referendadas pelas respectivas bancadas temáticas, não são nem ideológica nem políticas.

Após seu superministro da Economia, Paulo Guedes, defender uma “prensa” no Congresso, Bolsonaro descobriu também que os parlamentares sabem jogar duro, como ficou evidente na decisão de aumentar o teto salarial do funcionalismo em meio à crise fiscal.

O ex-capitão percebeu, por fim, que, como presidente, terá de pisar em ovos com a sua base de apoio mais aguerrida. O que significa comprar brigas até mesmo quando acerta.

É o caso do bate-cabeça com o anúncio para o Ministério da Educação. Até quarta-feira o escolhido era Mozart Neves Ramos, que gerava duas reações. Foi bem-vinda entre os que entendem de assunto, mas caiu mal entre os que não entendem.

Educação, vale lembrar, é assunto para entendidos e é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que encontrar um entendido entusiasta das propostas do tipo Escola sem Partido – um nome bonito que esconde a intenção de determinadas lideranças religiosas de cercear os debates relacionados a política, tolerância e sexualidade em sala de aula. Falamos sobre isso neste texto.

Quem convive com professores, mesmo os que passam longe de vestir camisa com foice e martelo em sala de aula, sabe o nível de tensão e estresse que a simples possibilidade de avanço de propostas do tipo provoca entre os profissionais já suficientemente desvalorizados no país.

É consenso também, entre especialistas, que o projeto tende a tornar a profissão ainda menos atraente.

E ninguém sabe exatamente que tipo de futuro pode ter um país que persegue os próprios professores.

Voltamos, então, à escolha do ministro.

O pecado de Mozart – educador, escritor, ex-reitor da UFPE e atual diretor do Instituto Ayrton Senna – é não ser exatamente um entusiasta do cerceamento de professores.

O anúncio sobre o ministro, imediatamente “desanunciado”, por um instante deu a impressão de que o presidente eleito havia tirado a roupa do candidato.

Parecia ter compreendido que uma coisa é ganhar eleição; bem outra é governar.

O recuo mostra que não será tão fácil, para Bolsonaro, se livrar do próprio personagem.

Se fizesse a coisa certa, e escolhesse alguém neutro, entendido no assunto e que não fizesse coro aos delírios sobre espantalhos do ensino no país, o presidente eleito compraria briga com os setores que serviram como base de sua militância mais aguerrida.

No fim, ao escolher o colombiano Ricardo Vélez Rodríguez, um “anti-marxista” indicado por Olavo de Carvalho, o presidente optou por, na prática, referendar as bases do Escola sem Partido – o que, como esperado, causa preocupação entre os profissionais de fato ligados à educação. Ao menos a maioria deles.

Em nome do combate às ideologias de esquerda, Bolsonaro compõe um ministério dominado por outra ideologia, esta supostamente anti-esquerdista, seja lá o que isso signifique.

Resta saber o que, além de espantalhos, seus entusiastas têm a apresentar sobre os problemas do Brasil real.

 

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