Multipolar ou multirrisco? Por que o Brasil deve repensar seu lugar no BRICS

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Multipolar ou multirrisco? Por que o Brasil deve repensar seu lugar no BRICS

 

Opinião

 

Página 12

Folha PE 30.07.2025

Multipolar ou multirrisco? Por que o Brasil deve repensar seu lugar no BRICS

 

ANDRÉ RÉGIS 

CIENTISTA POLÍTICO, PROFESSOR DA UFPE

 

A participação do Brasil no BRICS tem se revelado cada vez mais problemática; se antes praticamente não havia custos, hoje o cenário é outro: o mundo vive conflitos abertos e a incerteza alcançou patamares alarmantes. 

 

Não sendo nem aliança militar, nem bloco econômico, afinal, o que é o BRICS? 

 

Quando o economista Jim O’Neill cunhou a sigla BRIC num relatório do Goldman Sachs em 2001, pretendia apenas destacar quatro mercados emergentes — Brasil, Rússia, Índia e China — que pareciam “ações baratas” destinadas a render dividendos generosos a Wall Street. Tudo dentro de uma lógica neoliberal. 

 

Duas décadas depois, o criador admite que o agrupamento, hoje BRICS, “serve pouco além do simbolismo”. No entanto, com o passar do tempo, o acrônimo deslizou das planilhas para formar um fórum com quatro países, em 2009. Em seguida, adicionou a África do Sul em 2011 e desde então coleciona cúpulas, comunicados e fotografias. Nada mais do muito custo para os contribuintes dos países membros e uso dos discursos para propósitos de política interna. 

 

Com o passar do tempo, a mudança de perfil do bloco coincidiu com a ascensão geométrica da China. Ao superar 15 % do PIB mundial, Pequim passou a usar o fórum como tribuna de contestação à hegemonia norte-americana. A Rússia, sancionada desde 2022, encontrou abrigo retórico nessa mesma arena. A ampliação anunciada em 2023 trouxe Egito, Etiópia, Irã e Emirados Árabes; em 2025, a Indonésia juntou‑se formalmente. O resultado é um mosaico que reúne ditaduras, democracias frágeis, petromonarquias e rivais fronteiriços, unidos muito mais pela postura ideológica de confronto com os Estados Unidos do que por qualquer projeto comum. 

 

Quando se examinam os números, a discrepância entre retórica e realidade salta aos olhos, revelando a falta de substância do agrupamento. Para se ter uma ideia, desde 2015 o Novo Banco de Desenvolvimento aprovou US$ 34,8 bilhões, mas seus desembolsos líquidos somaram apenas US$ 17,9 bilhões até 31 de dezembro de 2023. No mesmo exercício fiscal, o Banco Mundial comprometeu US$ 117,5 bilhões em empréstimos, doações, participações e garantias. Para o Brasil, o NDB autorizou pouco mais de US$ 2,5 bilhões em linhas a instituições financeiras e projetos, acrescidos de empréstimos recentes como os US$ 500 milhões do Fundo Clima — valor inferior ao que o BNDES libera num simples semestre. 

 

Embora modestos, esses valores até poderiam gerar algum benefício, caso não houvesse custos. Num cenário em que tarifas atuam como projéteis balísticos de todos os alcances, manter uma postura ativa no grupo, sem vantagens tangíveis, pode sair muito caro. 

 

Outro dia, o presidente Donald Trump ameaçou impor tarifas de 100 % a países que continuassem comprando petróleo russo caso Moscou não chegue a um acordo com a Ucrânia em cinquenta dias — movimento que analistas julgam de baixa probabilidade, mas de alto ruído regulatório. Poucos dias depois, o secretário‑geral da OTAN, Mark Rutte, seguindo a cartilha de Trumpista, alertou que Brasil, China e Índia “poderiam ser duramente atingidos” por sanções secundárias se mantivessem negócios amplos com a Rússia. 

 

Voltando à falta de nitidez do grupo, a Índia, por sua vez, ilustra o paradoxo interno. Enquanto bloqueia a discussão sobre uma moeda comum do BRICS, Nova Délhi acelera a internacionalização da rúpia para reduzir dependência do yuan e do próprio dólar, exercendo a diplomacia do equilíbrio e não do alinhamento automático. 

 

Portanto, resta saber se, para o Brasil, os ganhos compensam os riscos. De um lado, o BRICS oferece, com péssimas companhias, retórica de “mundo multipolar” e algum financiamento incremental. De outro, coloca a balança comercial, lastreada em soja, minério, proteína animal, e aviões, na linha de tiro de tarifas e sanções extraterritoriais justamente quando os EUA transformam o comércio em arma de geopolítica. Some-se a isso a crescente assimetria estratégica: dentro do grupo, o Brasil é um parceiro de médio porte, sem peso econômico ou militar significativo, e é assim que Índia, China e Rússia o enxergam. Nesse sentido, a China, que responde por mais da metade do PIB do bloco, exige dos parceiros posições estratégicas em logística — portos, telecomunicações e energia. 

 

Alianças duráveis exigem objetivos compartilhados e custos previsíveis — atributos que o BRICS ainda não entregou. Como lembra Henry Kissinger, a arte da diplomacia consiste em hierarquizar interesses antes que os fatos o façam por nós. Para o Brasil, esses interesses continuam a chamar‑se acesso a mercados, segurança jurídica para investidores e liberdade de manobra — bens que uma adesão acrítica a um BRICS cada vez mais antiamericano pode arriscar a um preço alto demais. Sem falar em nosso lugar no mundo, naturalmente ao lado das democracias.