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Paulo Freire foi professor e doutor honoris causa de diversas universidades no Brasil e exterior PDF Imprimir E-mail

29.09.2021


Publicações que circulam nas redes sociais, com mais de 40 mil interações, desde 19 de setembro de 2021, afirmam que o educador brasileiro Paulo Freire “nunca foi professor”, que seu único diploma era o de bacharel em Direito, que ele “nunca alfabetizou um criança” e que sua experiência de alfabetização teria sido adquirida em acampamentos do Movimento Sem Terra (MST). Mas as publicações são enganosas, de acordo com documentos sobre a trajetória do educador e com cinco especialistas consultados pela AFP.

“Duas verdades que nunca te contaram sobre Paulo Freire: 1 - Ele NUNCA foi professor, o único diploma que Paulo Freire tinha era de bacharel em direito. 2 - Ele NUNCA alfabetizou uma criança, sua experiência em alfabetização foi de adultos no MST” , diz a publicação compartilhada no Facebook ( 1 , 2 , 3 ), no Instagram e no Twitter ( 1 , 2 ).

No último 19 de setembro de 2021, foi comemorado o centenário do educador Paulo Freire, que faleceu em 1997. O marco motivou uma série de eventos em universidades e em outras instituições como o Senado Federal . Nesse contexto, alguns críticos de sua metodologia e obra compartilharam publicações questionando sua trajetória e atuação como professor.

De bacharel em Direito a professor

Paulo Reglus Neves Freire nasceu em 19 de setembro de 1921 em Recife, Pernambuco. Freire, reconhecido em 2012 como “Patrono da Educação Brasileira” , foi um educador e filósofo premiado em todo o mundo por seus trabalhos na área da educação. Foi contemplado, por exemplo, com o Prêmio Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) da Educação para a Paz em 1986 ; e com o Prêmio Andres Bello como Educador do Continente da Organização dos Estados Americanos (OEA) em 1992 .

O educador, de fato, graduou-se em Direito em 1947 pela Escola de Direito de Recife - transformada no Centro de Ciências Jurídicas da Universidade Federal de Pernambuco ( UFPE ) -, mas não chegou a exercer a profissão. A informação foi confirmada pelo Instituto Paulo Freire, que enviou ao Checamos uma declaração da UFPE sobre a graduação de Freire. Sua primeira experiência com o ensino foi como professor de língua portuguesa no Colégio Oswaldo Cruz, em sua cidade natal, onde havia estudado na sua adolescência.

Ao contrário do que diz a publicação viral, Freire lecionou em diversas universidades dentro e fora do Brasil, como a Universidade Estadual de Campinas ( Unicamp ), a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo ( PUC-SP ) e a Universidade de Genebra , Suíça. Também fez parte do corpo docente da Escola de Belas Artes de Recife , onde apresentou uma tese para a cátedra de Filosofia e História da Educação, publicada posteriormente como um livro .

Títulos

Usuários também afirmam, nas publicações viralizadas, que o "único diploma que Paulo Freire tinha era de bacharel em direito" .

“Ele não fez o doutorado, não defendeu a tese, mas ele é doutor honoris causa, então isso é muito além de defender uma tese de doutorado” , afirmou Maurilane de Souza Biccas professora na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo em declaração ao Checamos.

Freire recebeu mais de 40 títulos como doutor “honoris causa” de universidades nacionais, como a Unicamp , e estrangeiras, como a Universidade de Genebra ; a Complutense , de Madri; e a de Lisboa .

O título é concedido pelas universidades a personalidades que se destacam por sua contribuição à cultura, à educação ou à humanidade. Walter Kohan , professor titular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e especialista em filosofia da educação e infância, disse ao Checamos:

“Sua formação e seu compromisso, sua coerência em fazer de sua vida dedicação completa à alfabetização e libertação das classes oprimidas, é inquestionável, é reconhecida no mundo inteiro. Paulo Freire sempre foi muito sensível à injustiça e à opressão”.

Alfabetização de adultos

Segundo as publicações virais, Freire “NUNCA alfabetizou uma criança” , o que é verdadeiro. Seu projeto foi direcionado a adultos dos setores mais pobres do Brasil, que não haviam sido alfabetizados antes, como afirmou ao Checamos Pablo Martinis , professor titular do Departamento de Pedagogia, Política e Sociedade da Universidade da República, no Uruguai.


Sobre a relação de Freire com o ensino infantil, Kohan explicou que, embora o educador não tenha atuado diretamente com a educação infantil, algumas de suas ideias inspiram profissionais dedicados a esse nível de educação. “Ele não escreve sobre educação infantil no sentido de educação de crianças pequenas, mas ele trabalha ideias sobre a criança e a infância que inspiram educadores da educação infantil” , assegurou.

No entanto, diferentemente do que afirmam as publicações virais, Freire jamais alfabetizou adultos em acampamentos do Movimento Sem Terra (MST). Ele começou a trabalhar com a alfabetização de adultos ainda em 1947, quando dirigiu o Departamento de Educação e Cultura do Serviço Social da Indústria ( Sesi ). Nesse período o MST ainda não havia sido criado, o que viria a ocorrer apenas em 1984 . Nesse ano, Freire já havia retornado ao Brasil de seu exílio de 16 anos, por conta da ditadura militar.

Ao voltar ao Brasil , em 1980, ele lecionou na Unicamp, na PUC-SP, foi secretário de Educação da Prefeitura de São Paulo e já não mais coordenava programas de alfabetização.

“Toda essa experiência de educação com adultos é muito anterior ao surgimento do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra” , confirmou ao Checamos Federico Brugaletta, especialista em Paulo Freire e professor de Ciências da Educação na Universidade Nacional de La Plata, na Argentina. No mesmo sentido afirmou Pablo Martinis:

“Esse trabalho foi desenvolvido em várias comunidades do Brasil em uma época em que ainda não existia o MST, demorou mais de uma década para a fundação do Movimento Sem Terra. Portanto, não se pode afirmar que Freire trabalhou exclusivamente com a alfabetização nesse movimento” .

Walter Kohan destaca que a atuação de Freire nos projetos de alfabetização de adultos ocorria, sobretudo, no nível de coordenação, tanto no Brasil quanto nos países em que atuou, como Guiné-Bissau, Tanzânia, Nicarágua, Cabo Verde. Kohan afirma que:

“Paulo Freire de fato não alfabetizava. Ele era coordenador dos cursos, dos programas, fazia alguma intervenção ou outra. Por exemplo, naquele primeiro curso de Angicos [município no Rio Grande do Norte] de 1963, não era Paulo Freire quem alfabetizava, eram estudantes formados por ele”.

Em 1964, seu projeto “alfabetizaria 6 milhões de pessoas em um ano. Isso significava 6 milhões de novos votantes, porque os analfabetos não votavam. Imagina o efeito político disso” , aponta Kohan.

“O compromisso, a dedicação de Paulo Freire à alfabetização de jovens adultos, essa sua militância tem a ver também com seu compromisso com a infância, mas não a infância como uma idade, a infância como um tempo. De certo modo, Paulo Freire era um grande apaixonado pela infância e por isso a sua dedicação com a educação tem a ver com recuperar a infância” , diz ele.

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Lançamento do livro “A Assistência Social e o SUAS no Contexto de Desmonte da Seguridade Social Brasileira" será realizado hoje (29) PDF Imprimir E-mail

29.09.2021

Será realizado nesta quarta-feira (29), das 14h às 18h, no Canal do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas (PPGPP/UFPI) no YouTube, o lançamento da primeira edição do livro “A Assistência Social e o SUAS no Contexto de Desmonte da Seguridade Social Brasileira", editora Edufpi, organizado pela professora Iracilda Alves Braga, docente do Curso de Serviço Social e do PPGPP.

A apresentação do livro contará com a participação da organizadora, Iracilda Braga, e da professora Juliane Peruzzo, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Haverá ainda a realização do Debate Contemporâneo Sobre o SUAS e Assistência Social no Contexto de Desmonte da Seguridade Social, com o professor convidado Marcelo Sitcovsky, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

Segundo a autora, a obra apresenta uma incursão crítica e madura sobre os processos de “desmonte” da Seguridade Social e aponta as perspectivas e tendências, da Política Pública de Assistência Social e do Sistema Único de Assistência Social - SUAS, no cenário contemporâneo Brasileiro, produzida por Estudiosos/as e Pesquisadores/as na temática.

As inscrições serão realizadas no SIGAA UFPI, até a data do evento de lançamento do livro.

Confira a programação.

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A vida sem auxílio emergencial: despensa vazia, dívidas penduradas e carne só de vez em quando PDF Imprimir E-mail


29.09.2021


Em meados de 2020, o projeto de extensão Reportagens Especiais do curso de Comunicação Social do campus Caruaru da UFPE levou a estudante Géssica Amorim a relatar os impactos do auxílio emergencial nas famílias do interior de Pernambuco. A reportagem foi publicada pela Marco Zero como parte da parceria com o Observatório da Vida Agreste. Este ano, Géssica foi contratada como estagiária da nossa equipe. Essa semana, ela retornou à casa da sua entrevistada de um ano atrás.

Quando visitei a casa da agricultora Ivonete da Silva, 48, pela primeira vez, há pouco mais de um ano, no distrito de Sítio dos Nunes, sertão do Pajeú, ela tinha acabado de realizar o sonho de fazer a feira do mês em fardos (como se vende em atacado), comprar um celular para se comunicar com a família e pagar as contas atrasadas que tinha nas bodegas do distrito.

Àquela época, o que possibilitou a dispensa cheia de Ivonete, a quitação das suas dívidas e a compra do seu primeiro celular, foi o pagamento provisório do Auxílio Emergencial em 2020, que, inicialmente, durou de abril a setembro, destinando o valor de R $1.200 a mulheres mães e chefes de família cadastradas no Bolsa Família. Com a sua prorrogação de três meses, o valor do benefício caiu para R $300, com parcelas pagas até o mês de dezembro.

Durante seis meses, os R$1.200 do auxílio proporcionaram um pequeno e momentâneo salto na qualidade de vida de Ivonete e de sua família. Ano passado, a renda mensal da família da agricultora era de R$ 2.239, somando o valor do benefício à aposentadoria rural do seu marido José Januário da Silva, 77, que recebe um salário mínimo.

Segundo estudo publicado em 2020 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), cerca de 4,4 milhões de domicílios brasileiros sobreviveram apenas com a renda do Auxílio Emergencial, em julho daquele ano. Entre os domicílios mais pobres, o rendimento das famílias atingiu 124% do que seriam as suas rendas “normais”.

Mais comida, dinheiro para custear despesas com água e eletricidade, gastos com saúde e transporte, mas por tempo determinado. Com fim do Auxílio Emergencial, Ivonete volta a receber os R$ 265,00 do seu cadastro do Bolsa Família e a contar apenas com o valor da aposentadoria de José Januário para manter uma família de oito pessoas.

Fazendo as contas, levando em consideração o preço do gás, do aumento dos valores dos itens da cesta básica e a conta de luz mais cara, não há dificuldade em imaginar que a situação da família de Ivonete, agora, está ainda mais complicada do que antes. “A gente compra carne de vez em quando. Agora está muito cara, não dá pra ser sempre. Feira de fardo, também, não dá mais. Tem que comprar o que dá e pagar as contas. E em um canto ou outro fica alguma coisa pendurada, que a gente precisa pegar quando falta durante o mês. E ele [José Januário] tem problema de saúde. Tem que comprar remédio pra pressão todo mês”, conta Ivonete.

A mulher que copia livros

Descobri que Ivonete gosta de transcrever livros. De todo tipo, sejam didáticos ou paradidáticos. Usando como apoio dois tamboretes que ficam na varanda da casa onde mora, ela costuma passar as tardes transcrevendo para os seus cadernos o que está escrito nos livros que ganha de professoras da escola do distrito ou os que encontra e recolhe na rua ou no lixo.

A agricultora conta que tem esse costume desde que parou de frequentar a escola, aos 15 anos, quando teve o seu primeiro filho. Ela não chegou a terminar o ensino fundamental, mas diz que, se tivesse continuado a estudar, provavelmente hoje seria professora. “Eu parei de estudar muito nova, quando tive meu primeiro filho. Eu tinha 15 anos, queria ser professora, mas depois que engravidei, pronto, meu ‘ser professora’ foi cuidar de menino”.

Ivonete faz tudo com muito gosto, já perdeu a conta do que leu e transcreveu ao longo de mais de 30 anos, mas, durante esse tempo, infelizmente, não considerou e nem considera voltar a estudar. “Quando eu não estou fazendo nada, eu pego um livro e vou pintar, escrever. Tem livro, aí, que eu já li mais de 500 vezes. Eu não penso em voltar pra escola. Meu negócio é só ler e escrever, não tenho mais paciência pra outras coisas. Eu prefiro ficar quieta, aqui, mesmo”.

Ler, escrever e colorir as ilustrações e desenhos dos livros é o que envolve Ivonete e as palavras. O critério para a escolha dos livros é que eles não sejam de matemática. Os números, ela dispensa. “Eu recebo todo tipo de livro. Quem quiser me dar, eu aceito. Agora, só não mande de matemática. Eu não gosto de jeito nenhum, nunca gostei de conta”.

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O que acontece após a erupção de um vulcão PDF Imprimir E-mail

29.09.2021


Seja por curiosidade científica, seja porque o Brasil tem a sorte de não ter vulcões ativos, há muitas dúvidas sobre o que acontece depois de uma erupção.

No imaginário popular está aquela ideia, aprendida na escola, de que solo de origem vulcânica é mais fértil. Por outro lado, cenas de lava destruindo tudo, como o que estamos vendo agora em La Palma, nas Ilhas Canárias, território espanhol na costa noroeste da África, deixam clara a potência dessa tragédia natural.

O primeiro ponto a ser analisado é quanto ao tempo leva uma erupção. "Há muitas variáveis, ea principal é saber quanto de magma tem embaixo do vulcão, pois é esse magma que alimenta a erupção. Ele fica armazenado em grandes bolsões subterrâneos", explica a geóloga e vulcanóloga Carla Barreto, professora da Universidade Federal de Pernambuco ( UFPE) - ela coordena o perfil no Instagram @vulcoeseviagens, conhecidos posts são feitos em conjunto com seus estudantes.

Além da quantidade de magma, para uma erupção se manter é preciso ficar aberta a passagem para a saída da lava. Ou, como explica o pesquisador José Manuel Pacheco, diretor do Instituto de Investigação em Vulcanologia e Avaliação de Riscos da Universidade dos Açores, em Portugal, é necessária "a preservação do sistema de alimentação do vulcão, de modo que o magma continue a ter acesso à superfície ".

Mas há outros fatores que também pesam nessa conta. Por exemplo, a localização do vulcão, ou seja, se está num limite de placa tectônica ou no meio de uma delas.

"Normalmente não influencia, mas há um impacto na imagem a forma do vulcão, ou seja, se é cônico, simétrico, causa um tipo de erupção; se é uma fissura no chão, uma forma como o magma é expelido é diferente", comenta Barreto. Ela faz uma analogia: quando uma erupção começa, é como uma garrafa de refrigerante sendo aberta. "Causa uma pequena explosão e, depois, saem as lavas", diz a pesquisadora.

"É muito difícil dizer isso [quanto tempo dura uma erupção]. Alguns ficam por anos, décadas, envelhecem de anos, até dois milênios ...", comenta a geóloga, astrônoma e vulcanóloga Rosaly Lopes-Gautier, cientista da Nasa, a agência espacial americana.

"No caso das Ilhas Canárias, há uma probabilidade de que não seja uma erupção ativa por muito tempo. Deve durar questão de semanas, talvez. Não anos." Ela explica que para estimar isso é preciso olhar para "erupções do passado" e comparar como características.

É o que faz o pesquisador Ben Ireland, vulcanólogo pela Universidade de Bristol, na Inglaterra, e autor do perfil @BensVolcanology no Twitter. Para estimar o tempo de duração da erupção atual, ele recorre a 1971.

"A última erupção em La Palma durou 20 dias. No entanto, a atual erupção já parece que será muito maior do que a anterior e, portanto, deve durar mais tempo. Normalmente, esse estilo de erupção se arrasta, em uma escala de tempo , por semanas a meses ", pontua.

O vulcanólogo Pacheco crava algo semelhante. "A maioria das erupções à superfície do planeta dura entre um e seis meses. No caso de La Palma, as últimas erupções tiveram durações entre três semanas e três meses. Nesta, é de se esperar comportamento semelhante", diz.

Há outras nuances que precisam ser observadas, como saliente o geólogo Hugo Cássio Rocha, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie. "Não é uma tarefa simples prever uma erupção de um vulcão com grande antecedência e nem o tempo que durará. Em geral, isso é feito analisando o aumento de frequência das atividades sísmica, os tremores. À medida que ficam mais frequentes, indicam aumento de movimento e pressões em profundidade e movimentações de magma ", afirma ele.

"Depende também da composição do magma", completa. Isso porque magmas mais ácidos ou graníticos, ou seja, com maior teor de silício, tendem a se comportar de forma que os eventos sejam mais rápidos e violentos - porque a lava flui menos. "Já vulcões de magma basáltico têm a lava mais fluida e esta corre com mais facilidade. São típicos de piso oceânico e menos violentos, uma erupção tende a ser mais longa", pontua Rocha.

Terra devastada

Mas as imagens são de destruição nas Ilhas Canárias. As casas foram arrasadas e os habitantes dos habitantes precisaram ser evacuados. E os tais rios de lava - que fluem a temperatura na casa de 1 mil graus - avançam por toda parte.

"Quando ocorre uma erupção em uma região já habitada, é importante começar dizendo que as lavas sempre vão ter a tendência de ir para os locais mais baixos. Elas se deslocam como que seguindo o fluxo de um rio", explica a vulcanóloga Barreto. E o que está no caminho, não tem jeito, acaba destruído. "Uma lava invade as casas, queima a vegetação, destrói tudo o que tem", enumera um especialista.

"Após a erupção, a região afetada pela lava fica como rocha, como o ambiente 'lunar'. Toda a vegetação é queimada, as estruturas, destruídas", diz o professor Rocha. "A curto prazo, o local fica, sim, inutilizado. Com o passar do tempo, a rocha [de formação vulcânica], que é muito porosa, sofre intemperismo, 'apodrece' e vira solo. O tempo que isso ocorre depende da temperatura ambiente e da precipitação local. "

"Uma área coberta pela lava fica inutilizável para a agricultura ou pecuária, pois não há solo. Demorará muito até que se desenvolva um novo solo sobre a lava", pontua Pacheco. Ele explica que, para a volta da ocupação humana, tudo depende da espessura das lavas. "No caso de lavas espessas como as da erupção do vulcão em La Palma, que têm de 10 a 12 metros, será muito difícil voltar a reconstruir sobre elas", completa ele.

Haveria problemas de estabilidade nas construções, de funções do solo e até mesmo para a ligação a infraestruturas como água, luz e esgoto - enumera o especialista. "No entanto, é possível reconstruir infraestruturas como a rede viária, a partir do momento em que a escoada está já suficientemente fria para permitir uma intervenção", diz.

O vulcanólogo Ireland frisa que esse resfriamento pode "levar meses, se os fluxos principais intensos". "Muitas vezes, quando uma erupção termina, as pessoas não têm como voltar para suas casas. Elas foram queimadas, arrasadas. Elas não têm para onde voltar", acrescenta Barreto.

Nesses casos, o mais comum é que novos assentamentos sejam construídos em outros lugares, dadas as dificuldades de reocupar o mesmo espaço. "O solo [banhado pela lava] fica completamente arrasado e leva muito tempo para que novas habitações sejam construídas ali", pontua Barreto. "O relevo fica todo irregular e aplainar não é fácil, pois é rocha."

Riscos

Mas além desses inconvenientes, digamos, surgem, há outros fatores que dificultam a volta da população a uma região afetada por uma erupção vulcânica. Principalmente porque a área fica repleta de gases tóxicos.

"São toneladas de gases expelidos pelo vulcão, dentre eles dióxido de carbono e dióxido de enxofre", explica Barreto. "Em quantidade acima do limite aceitável na atmosfera, eles se tornam nocivos às pessoas dessas regiões, causando efeitos físicos e mentais." A pesquisadora conta que esses gases também contaminam a vegetação e, por cadeia alimentar, os animais que comem essas plantas. Segundo ela, essa alta concentração de gases pode durar anos.

Lopes-Gautier acrescentaenta que há outro fator de risco: muitas vezes, mesmo que o vulcão tenha cessado de expelir lava, ele continua soltando gases. E isso precisa ser monitorado, antes de uma reocupação segura da região. Uma vez cessada essa emissão de gases, eles tendem a se dissipar, principalmente pela ação das chuvas.

É preciso também aguardar a limpeza das cinzas. "As partículas mais finas deixam em suspensão no ar", lembra Pacheco. "Elas são irritantes para os olhos e mucosas do sistema respiratório e, principalmente pequenas, podem ser inspiradas até aos brônquios ou aos alvéolos pulmonares, onde podem desencadear problemas de saúde."

Mas o maior perigo é que haja uma nova erupção. Por isso, uma autorização de retorno dos habitantes precisa ser dada depois de cuidadosas análises. "Antes da população voltar, é preciso ter a certeza de que realmente o vulcão não está mais em atividade", ressalta Lopes-Gautier. "É necessário fazer muito monitoramento da atividade sísmica para saber se ele não está só dando uma soneca e vai começar [a expelir lava] de novo."

Tremores de terra também não são raros, nos meses subsequentes à atividade vulcânica. E isso precisa ser acompanhado por pesquisadores e órgãos de defesa civil.

"O principal risco é outra erupção", concorda Irlanda. Mas ele mesmo lembra que embora as erupções "sejam muito destrutivas", elas acabam sendo "rapidamente esquecidas pela população". "Muitas casas em torno da área afetada costumam ser construídas anos após a erupção". E isso é o que aconteceu nas próprias Ilhas Canárias, em outras ocasiões.

Barreto conta que, em regiões onde ocorreram erupções vulcânicas recentes, tem-se buscado orientar que sejam evitadas novas casas em regiões de relevo mais baixo, justamente para que as populações fiquem protegidas de futuros jorros de lava.

Fertilidade

Um solo de origem vulcânica costuma ser muito fértil. Isso porque o material expelido acaba trazendo uma farta riqueza de sais minerais, em um processo de "reabastecimento natural de nutrientes do solo", como pontua a professora Barreto.

Mas se o efeito colateral positivo dos vulcões pode ser resultado das cinzas e pequenas partículas que se espalham mesmo em regiões que não foram cobertos por lava, uma transformação das rochas decorrentes do ressecamento da lava em solo fértil é um processo que pode levar muito tempo.

É uma degradação que varia caso a caso. "Os solos nas regiões vulcânicas são ricos em minerais e, portanto, podem ser muito férteis", comenta Ireland. "Leva milhares de anos para os fluxos de lava erodirem e formarem um solo fino. Para as cinzas, esse processo é muito mais rápido."

"A taxa de conversão do solo é muito variável e depende do clima, da composição das cinzas e da espessura. Por exemplo, uma camada muito fina de cinzas sobre um solo existente [sem cobertura de lava] pode se tornar solo reconstruído em questão de anos ", exemplifica o pesquisador.

Essa fertilidade, contudo, é o principal motivo que faz com que muitas populações humanas vivem em regiões onde no passado houve atividade vulcânica.

"Os elementos químicos importantes para as plantas, nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio, sódio, entre outros, são muito solúveis e vão sendo levados pela água da chuva. O vulcão renova o estoque deles no solo, trazendo-os das profundezas", contextualiza o professor Rocha. "Exemplos são as grandes produções de oliva e pistache na Sicília [na Itália] e na explosão e renovação de vida que ocorrem em ilhas oceânicas do Pacífico [de origem vulcânica] que, pouco tempo após atividades vulcânicas, se recuperam rapidamente e com exuberância. "

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Podcast educativo leva conhecimentos sobre o ambiente marinho para crianças PDF Imprimir E-mail

29.09.2021


Quem melhor para contar os segredos do mar do que os animais marinhos? Um Mar de Histórias é um projeto de podcast educativo infantil com objetivo de levar para as crianças conhecimentos sobre o ambiente marinho e a importância da conservação ambiental. Durantes os episódios, as corais Mille (Millepora Alcicornis) e Mussi (Mussismilia harttii) recebem um gravador especial e se tornam repórteres, contando sobre o dia a dia do ambiente recifal com os seus amigos, outros animais marinhos, que vivem na praia de Porto de Galinhas, no município de Ipojuca, em Pernambuco. O programa é uma alternativa atrativa de conteúdo educativo e de entretenimento para o público infantil, utilizando do debate científico em temas que envolvem o ambiente marinho.

A primeira temporada tem seis episódios e introduz informações sobre os personagens e o ambiente dos recifes de coral. O primeiro capítulo estreou no dia 30 de agosto e, toda segunda-feira, às 12h, é lançado um novo. Um Mar de Histórias está disponível nos principais tocadores de Podcast (Spotify, Google Podcasts, Deezer, Apple Podcasts) e no YouTube. O projeto é uma iniciativa de estudantes da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), dos cursos de Rádio, TV e Internet, e Design, e conta com apoio do Instituto Serrapilheira, instituição privada de fomento à ciência no Brasil sem fins lucrativos.

Para a estudante de Comunicação Social da UFPE e idealizadora do programa Thalia Santana, o projeto tem grande importância no processo de conscientização: “quanto mais cedo o tema for abordado com o público infantil, maiores serão as chances da conscientização pela preservação marinha e ambiental como um todo”, afirma.

Um Mar de Histórias surgiu em maio de 2020, quando as estudantes notaram a pouca existência de programas de podcast educacionais infantis brasileiros e inexistência de programas de podcast com a temática do ambiente para esse público. O programa foi um dos aprovados no edital “Camp Serrapilheira 2020: Podcasts” do Instituto Serrapilheira, que lançou uma chamada pública para podcasts brasileiros de divulgação científica. Entre 1.010 propostas recebidas, 8 foram selecionadas, sendo o projeto da UFPE a única iniciativa de estudantes que foi aprovada.

A estudante de comunicação da UFPE Carol Jeronimo, também idealizadora do programa, acrescentou que esforço e recursos na produção foi com o objetivo de “ajudar pais e professores a oferecer produtos de qualidade com conceitos educativos simples, colocando as crianças diretamente em contato com o universo marinho e os problemas ocorridos neste ambiente.”

O projeto conta ainda com a colaboração de professores, estudantes e profissionais de outras áreas, como biologia, ecologia, comunicação, ciência da computação e secretariado. A equipe faz parte da Biofábrica de Corais, um projeto do Laboratório de Enzimologia Luiz Accioly (LABENZ), do Departamento de Bioquímica da UFPE, que tem como objetivo gerar produtos, bens e processos na conservação dos corais brasileiros.

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