Histórico

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O Laboratório de estudos sobre Espaço, Cultura e Política (LECgeo) foi fundado oficialmente em abril de 2008, quando de seu registro no Diretório dos Grupos de Pesquisa do CNPq. No entanto, as diferentes trajetórias que conduziram à reunião de professores, alunos e colaboradores em torno da ideia de constituir um campo de reflexão interdisciplinar a partir da abordagem cultural da geografia somente podem ser vistas a partir de um horizonte temporal mais amplo. Algumas balizas dessa convergência pontuam a identificação e evolução das “afinidades eletivas” de cunho acadêmico, político e pessoal que lastrearam nossa ulterior institucionalização.

Como, por exemplo, a realização do documentário “No Sertão eu vi”, entre 1997 e 1998, que contou com uma grande equipe multidisciplinar idealizada e coordenada pela diretora Kátia Augusta Maciel. Na ocasião, os consultores científicos eram os geógrafos Caio Maciel e Mauro José da Silva, oriundos de uma formação clássica em geografia agrária regional com o grande mestre José Grabois.

O staff incluía ainda a fotógrafa Ana Farache, o comunicólogo Paulo Cunha, o artista plástico Rinaldo, o músico Jarbas Maciel (pai de Caio e Kátia) e o estagiário de geografia (hoje pesquisador da Fiocruz) Marcílio Sandro de Medeiros. Todos empenhados em mostrar outro semiárido, positivo, plural e diverso, a partir de uma premissa bem definida por Ariano Suassuna: “é preciso passar a ver o sertão com um olhar que esteja à altura do próprio sertão”.

Assim, aquele filme foi um exercício de interpretação e reconstrução das paisagens sertanejas e de seus processos estruturadores, face à simbologia escatológica das estiagens. As escolhas entre mostrar singularidades internas ou o lugar comum do sertão pernambucano requisitaram grandes esforços para que o vídeo condensasse copioso material recolhido no transcorrer das filmagens. Mas o trabalho propiciou, sobretudo, o “fermento” para diferentes ideias, dentre as quais a realização do doutoramento de Caio Maciel numa vertente mais política e cultural, em consonância com sua formação na geografia da (agri)cultura. Nesta etapa, foram conselheiros fundamentais os professores Iná Elias de Castro, Vincent Berdoulay e Paulo César da Costa Gomes – ainda hoje nossos interlocutores privilegiados.

É importante destacar que, de diferentes maneiras, alguns dos que contribuíram com aquela pioneira reflexão sobre a nossa identidade regional podem ser considerados nossos “patronos”: caso de Ariano e dos saudosos Orlando Valverde e Joaquim Correia de Andrade, nossos entrevistados.

Todavia, há que se lembrar de outras confluências, talvez ainda mais remotas, como o coletivo que se formou, em 1995, na Universidade Federal Fluminense, em torno também de questões do campo: o grupo de pesquisa em geografia agrária e as experiências de estágio de vivência em assentamentos rurais entre os anos entre 1997 e 2000. Data desse período a rica troca acadêmica com Cláudio Ubiratan Gonçalves, como também a contribuição da professora Mônica Cox de Britto Pereira, unindo agroecologia, geografia e sociologia. Na UFF Jorge Luís Barbosa foi o primeiro estudioso da geografia a nos mostrar a fertilidade da ponte com o cinema. Como se pode perceber, os interesses, na origem, denotam uma preocupação mais forte com o meio rural – muito embora no presente as preocupações tenham sido bastante expandidas. Ilustrando a ampliação de focos, Kátia Augusta dedicou seu doutoramento às representações de favelas em filmes brasileiros e Caio Maciel realizou pós-doutoramento com foco no tema da convivência com o semiárido e patrimoniaização da caatinga.

Em resumo, após muitas caminhadas individuais, sem prejuízo à cumplicidade, eis que juntamo-nos à renovação da perspectiva cultural na geografia, formando um laboratório para dinamizar as trocas e melhor estabelecer uma base perene para o diálogo.

O LECgeo sedia-se no Departamento de Ciências Geográficas, mas conta com o apoio de professores e pesquisadores do Centro de Filosofia e Ciências Humanas e do Centro de Artes e Comunicação. O grupo já planejou e realizou atividades e pesquisas que buscaram dar corpo ao importante tema da espacialidade da cultura. Procuramos, portanto, contribuir para o surgimento e fortalecimento de uma sinergia entre as disciplinas, pesquisadores, grupos e redes de pesquisa interessados na perspectiva espacial dos fenômenos culturais.

A pluralidade temática e conceitual propiciada pelo LECgeo almejou ampliar e facilitar a inserção de pesquisadores das mais diferentes tradições epistemológicas, abarcando linhas de trabalho que correspondam aos interesses e investigações realizadas pelos participantes e parceiros. Desta maneira, os subtemas presentes na produção científica do laboratório remetem em linhas gerais aos trabalhos em andamento e/ou projetados pelos pesquisadores, constituindo-se, sobretudo, em plataformas de busca por afinidades dentro e fora da geografia.

No curso de sua existência o LECgeo já atua não apenas como um núcleo de pesquisas, mas vem buscando se tornar um agente ativo nas esferas do ensino e da extensão, promovendo cursos, palestras, trabalhos de campo e estimulando a participação de docentes e discentes da UFPE em eventos científicos e atividades extra-campus. Em sintonia com o Programa de Pós-Graduação em Geografia (PPGEO), as atividades do laboratório contribuíram para a inclusão definitiva da Geografia Cultural no rol das prioridades do DCG-UFPE. Deu-se, assim, um importante passo em direção à maior integração do Departamento e da Pós-Graduação com atividades científicas afins realizadas no Brasil e no mundo, incrementando o intercâmbio com instituições, grupos e redes interessadas nas mesmas temáticas, tais como o NEPEC (Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Espaço e Cultura), o NEER (Núcleo de Estudos em Espaço e Representações), a ANPEGE (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia) e a AGB (Associação de Geógrafos Brasileiros), com a participação de nossos estudantes e professores nos eventos realizados por esses grupos.

Cabe destacar, no âmbito interno, a realização de grupos de estudos envolvendo alunos de graduação e pós-graduação, organização de seminários e atividades em parceria com organizações sociais e outros laboratórios. Quanto a esse aspecto, realizou-se de forma pioneira em Recife o I Seminário LECgeo “Entre Geografia e Geosofia”, nos dias 10, 11 e 12 de dezembro de 2008, cuja programação contou com estudantes e professores das mais diversas áreas. A produção de material tanto para o seminário quanto para as disciplinas Geografia Cultural I e II tornou possível a publicação de uma brochura (o livro: Entre geografia e geosofia: abordagens culturais do espaço. 1ª. ed. Recife: Editora Universitária da UFPE, 2009. v. 01. 247 p. [MACIEL, C. A. A. (Org.)]. No segundo semestre de 2010, foi realizado o II Seminário LECgeo "Imaginar abordagens culturais do urbano e do rural", de 27 a 30 de setembro, cuja programação contou com a presença de profissionais de âmbito nacional e internacional. O evento ainda comportou a realização de três oficinas, exposição fotográfica e a exibição de filmes.

De forma sucinta, podemos assim relatar os resultados das atividades do LECgeo:

Maior projeção das abordagens culturais da geografia no cotidiano acadêmico da UFPE, com o intercâmbio entre departamentos e áreas afins;

Criação de laços com instituições nacionais interessadas nos mesmos temas, ampliando a inserção da universidade na sociedade e comunidade acadêmica;

Melhorias no ensino, com a criação de disciplina eletiva na pós-graduação (TEGH - Geografia Cultural I e II);

Contribuição para atividades de extensão, com o Cineclube LECgeo e o projeto de extensão “Imagens do sertão, sertão de imagens”, voltado à ampliação do alcance social da universidade;

Realização de grupos de estudos envolvendo alunos de graduação e pós-graduação, organização de seminários e atividades em parceria com organizações sociais, culminando com os eventos bianuais do LECgeo;

Produção de duas brochuras versando sobre geografia cultural;

Reunião de bibliografia especializada e do acervo de filmes para uso coletivo, nas dependências do Laboratório;

Inserção de bolsistas de iniciação científica, mestrandos e doutorandos em pesquisas e projetos de extensão voltados à geografia cultural;

Defesas de dezenas de monografias, dissertações e teses cujos integrantes participaram diretamente das discussões e atividades do laboratório.